Seja Bem Vindo - 21/04/2026 07:58

Agricultor investe quase R$ 500 mil para salvar safra na reta final da soja em MT

Foto: Pedro Silvestre/Canal Rural Mato Grosso

A reta final da colheita de soja 2025/26 em Mato Grosso apresenta um cenário crítico para os produtores que ainda tentam retirar o grão do campo. Em Planalto da Serra, o volume de precipitações ultrapassou os limites manejáveis, transformando talhões em áreas de difícil acesso. Para evitar o descarte total de parte da produção, estratégias extremas de investimento e adaptação técnica tornaram-se a única saída.

O agricultor Jorge Diego Giacomelli, que cultiva pouco mais de 800 hectares na região, relata um acumulado de 850 milímetros de chuva entre 30 de janeiro e 15 de março. O excesso de umidade encharcou o solo e estagnou as máquinas convencionais. Diante da impossibilidade de colheita comum, a solução foi investir cerca de R$ 500 mil em uma colheitadeira adaptada, semelhante às utilizadas em várzeas de arroz.

O investimento alto ocorre em um momento de desespero financeiro. “É mais uma dívida, mais uma conta, mas vamos ver se no final compensa para colher em torno de uns 90 hectares de soja. No desespero você não faz nem conta, essa é a realidade”, afirma Giacomelli. Segundo ele, o talhão em questão deveria ter sido colhido há duas semanas, mas foi abandonado temporariamente para focar em áreas menos críticas.

Mesmo com o novo maquinário, o grão retirado apresenta entre 40% e 50% de avaria. Embora ainda exista mercado para esse tipo de soja, a precificação ocorre muito abaixo das cotações atuais, que já são consideradas baixas pelo setor. A estimativa é que a produtividade, que poderia chegar entre 65 e 70 sacas de soja por hectare, feche pouco acima de 50 sacas devido aos descontos de qualidade e ao solo extremamente encharcado.

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Foto: Pedro Silvestre/Canal Rural Mato Grosso

Gargalos logísticos e ambientais

O produtor aponta que a dificuldade é agravada por restrições ambientais que impedem a drenagem do solo siltoso da região. Giacomelli critica a postura dos órgãos fiscalizadores, classificando como “ignorância” a proibição de técnicas que resolveriam o acúmulo de água. “Uma técnica agrícola que resolveria esse problema seriam os drenos, mas por uma questão de ignorância de órgãos ambientais, se proíbe fazer e você acaba passando por isso“, desabafa ao Canal Rural Mato Grosso.

Além da porteira, a infraestrutura logística também castiga o bolso e o tempo do agricultor. O escoamento pela MT-140, trecho vital para levar a produção até Campo Verde, é descrito como uma “tragédia”. O trajeto de 160 quilômetros, embora pavimentado, leva mais de cinco horas para ser concluído devido à precariedade do asfalto, cabeceiras de pontes ruins e falta de sinalização.

“Uma situação lastimável. A chuva sai de dentro dos antigos buracos e volta a ser buraco de novo. Então é um serviço que nem paliativo é. É um fiasco. Essa é que é a verdade”, diz Jorge Diego sobre a situação das rodovias estaduais.

O cenário econômico é pressionado ainda pelo aumento repentino no preço do óleo diesel. Com um consumo médio de até três mil litros diários no pico da colheita, Giacomelli viu o valor do combustível saltar de R$ 6,15 para R$ 8,08 por litro — uma alta superior a 30%. O aumento não previsto desestabiliza o planejamento feito no início da safra e ameaça a continuidade dos serviços pós-colheita.

O custo total de produção da fazenda está calculado em torno de 61 sacas por hectare. Com a quebra de rendimento, o prejuízo direto deve ser de 11 sacas por hectare. “A fazenda não ia dar conta de cumprir todos os contratos assumidos. Como nós temos uma outra propriedade em que a situação foi um pouco mais tranquila, a gente vai conseguir fugir desses washouts de contrato”, explica o produtor.

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Foto: Pedro Silvestre/Canal Rural Mato Grosso

Incertezas no horizonte financeiro

A proximidade dos vencimentos de custeio, fixados em 30 de março e 30 de abril, traz apreensão. A possibilidade de uma greve de caminhoneiros e o racionamento de diesel nas distribuidoras podem impedir que o grão chegue aos armazéns para beneficiamento e entrega às tradings. Sem a entrega física do produto, o pagamento não é liberado, gerando um efeito cascata de inadimplência com fornecedores.

Para Giacomelli, o momento é de resiliência psicológica diante de um ano que ele define como “para apagar da memória”. Ele destaca que a crise afeta não apenas o caixa, mas o emocional de quem vive da terra. O produtor reforça que a falta de políticas públicas e a incerteza logística tornam a atividade cada vez mais instável em períodos de adversidade climática.

“O brasileiro tem sofrido muito, mas eu acho que o produtor rural tem sofrido em dobro. Realmente tem tirado o sono da gente, tem desestabilizado relações familiares, inclusive. É contabilizar os prejuízos e torcer para que a gente consiga dar a volta por cima na próxima safra”, conclui o agricultor. A expectativa agora gira em torno da estabilização do clima para finalizar os últimos hectares e organizar as contas para o próximo ciclo.


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