A reta final da colheita da soja em Mato Grosso tem sido marcada por uma combinação de fatores que pressionam o produtor rural. O excesso de chuvas nas últimas semanas, somado às más condições das estradas e ao aumento no preço do diesel, tem impactado diretamente a produção e o escoamento da safra.
Em Planalto da Serra, no sudeste do estado, a situação já resulta em perdas no campo. Em uma propriedade com pouco mais de 800 hectares cultivados, cerca de 100 hectares passaram do ponto de colheita e podem apresentar prejuízos.
O produtor Jorge Diego Giacomelli relata que o volume de chuva comprometeu o planejamento da colheita. “Um ano muito complicado. Nós aqui do dia 30 de janeiro até o dia 15 de março estamos com 850 milímetros de chuva acumulada na fazenda”, afirma. Segundo ele, áreas que deveriam ter sido colhidas semanas antes precisaram ser deixadas para trás temporariamente.
Diante do cenário, a estratégia foi priorizar as áreas ainda viáveis e depois retornar às mais afetadas com adaptações. Ele conta que foi necessário investir em maquinário específico para tentar reduzir as perdas. “Gastamos em torno de uns R$ 500 mil. No desespero você não faz nem conta. Essa é a realidade”, diz ao Patrulheiro Agro.

Perdas e custo elevado
Mesmo com os esforços, parte da produção já apresenta danos significativos. O produtor relata que há talhões com alto índice de grãos avariados, o que reduz o valor de comercialização. “Já está com 40%, 50% de soja avariada já. Ainda que tenha um mercado para essa soja, mas uma precificação bem abaixo”, explica.
A expectativa de produtividade também foi impactada. Em condições normais, a área poderia alcançar entre 65 e 70 sacas por hectare, mas neste ciclo o resultado deve ser menor. “Se fechar vai fechar pouca coisa acima de 50 sacas por causa dos descontos”, afirma.
Com custos estimados em cerca de 61 sacas por hectare, o prejuízo já é inevitável na propriedade. “Nós vamos ter um prejuízo de mais ou menos de 11 sacas por hectare”, relata à reportagem do Canal Rural Mato Grosso. Apesar das dificuldades, ele destaca que o apoio de outra área da família deve ajudar a cumprir parte dos compromissos firmados.

Logística e diesel pressionam ainda mais
Além dos desafios dentro da porteira, o escoamento da produção também preocupa. Mesmo com trajeto totalmente pavimentado na MT-140 entre a fazenda e Campo Verde, o tempo de viagem tem sido muito superior ao normal devido às condições da rodovia.
O produtor descreve o cenário como crítico. “Um caminhão leva em torno de cinco horas e meia para fazer esse trajeto por causa da quantidade enorme de buracos que tem, cabeceiras de pontes ruins, sinalização péssima”, frisa. Para ele, a situação compromete toda a logística e aumenta os custos do transporte.
O problema se agrava com a alta no preço do diesel, essencial para a operação no campo. Durante o pico da colheita, o consumo diário na propriedade chega a cerca de 2 mil e 3 mil litros. “Você pega aí um diesel que no começo da safra estava R$ 6,15, a última carga que chegou aqui para mim é R$ 8,08. É um aumento de mais de 30%, não tem bolso que aguente”, diz.
Além do aumento, produtores também relatam dificuldade no abastecimento. “A empresa nos fala que não pode entregar todo o pedido que a gente faz, porque está racionado na distribuidora”, completa.
Dados do Instituto Mato-grossense de Economia Agropecuária (Imea) mostram que o preço médio do diesel S500 no estado subiu de R$ 5,83 para R$ 7,47 por litro no início de março, uma alta de 28% no período. Em regiões mais distantes dos grandes centros, o aumento é ainda maior.

A elevação repentina dos preços também preocupa lideranças do setor. Em Juruena, o Sindicato Rural aponta reajustes expressivos em curto prazo. “Nós saímos de um diesel em torno de R$ 7,00 para R$ 9,50 da noite para o dia”, afirma o presidente Marcelo Gheller Andrade, que atribui parte do impacto ao cenário internacional.
Na região do Vale do Araguaia, onde a colheita ainda está em andamento, o aumento do combustível já pesa no planejamento do produtor. O presidente do Sindicato Rural de Nova Xavantina, Endrigo Dalcin, ressalta que ainda há áreas a serem colhidas e recomenda cautela. “O produtor tem que ter muita cautela nesse momento e também na questão dos insumos para a próxima safra”, orienta. De acordo com ele, o ideal é segurar decisões e acompanhar o mercado antes de novos investimentos.
Para a Federação da Agricultura e Pecuária de Mato Grosso (Famato), os aumentos registrados preocupam e precisam ser apurados. O vice-presidente Ilson José Redivo afirma que há suspeita de práticas abusivas. “Tem muito aumento que foi considerado abusivo por parte das distribuidoras”, diz.
Ele destaca que o cenário atual compromete a viabilidade econômica da atividade. “O produtor já está sem renda vendendo soja a R$ 100 que é o nosso custo de produção hoje”, afirma. Com o diesel próximo de R$ 9 por litro em algumas regiões, o impacto vai além do campo. “Inviabiliza todo setor, não é só o agro, isso impacta no transporte e impacta na prateleira do supermercado”, conclui.
A reportagem do Canal Rural Mato Grosso entrou em contato com o Secretaria de Estado de Infraestrutura e Logística (Sinfra-MT), no entanto, até o fechamento desta edição, não houve retorno sobre a fiscalização da manutenção da MT-140 na parte pavimentada, saindo de Campo Verde passando por Nova Brasilândia, Planalto da Serra, seguindo sentido Trivelato.
+Confira todos os episódios da série Patrulheiro Agro
Clique aqui, entre em nosso canal no WhatsApp do Canal Rural Mato Grosso e receba notícias em tempo real.
O post Estradas ruins, diesel caro e chuva pressionam a final da soja em Mato Grosso apareceu primeiro em Canal Rural Mato Grosso.