A recente fala do governador em exercício Otaviano Pivetta sobre restringir gastos públicos com festas e shows não revela apenas uma preocupação tardia com o uso do dinheiro público escancara, sobretudo, contradições profundas dentro do próprio grupo político que governa Mato Grosso.
O problema é simples e direto: Pivetta não é um observador externo. Ele é parte central da gestão comandada por Mauro Mendes, que permitiu e regulamentou esse tipo de gasto. Portanto, ao criticar agora essa prática, ele não aponta um erro “dos outros” ele expõe uma decisão da qual foi cúmplice político.
Isso leva a uma pergunta inevitável e incômoda: se nunca foi um “vice decorativo”, como sempre fez questão de afirmar, por que só agora resolve se posicionar? Onde estava essa firmeza quando as regras foram criadas e mantidas? A mudança de discurso não soa como coragem soa como conveniência.
O timing também chama atenção. Em um momento em que o governo ao qual pertence mantém altos índices de aprovação, Pivetta parece ensaiar um distanciamento calculado. Ao criticar práticas da própria gestão, ele flerta perigosamente com o papel de oposição interna sem, no entanto, assumir claramente esse rompimento.
E aí surge outra dúvida: há rompimento com Mauro Mendes ou apenas um jogo político de bastidores? Porque, se não há ruptura, as falas e decisões em sentido contrário soam como deslealdade ou, no mínimo, falta de alinhamento. E se há ruptura, falta transparência para admitir isso de forma clara à população.
Outro ponto preocupante é a tentativa de terceirizar decisões. Ao indicar que o Conselho de Desenvolvimento Econômico e Social (Condes) pode assumir protagonismo nessas definições, Pivetta evita assumir diretamente o ônus político de escolhas difíceis. Governar exige responsabilidade, não repasse de decisões para estruturas que diluem a autoria e a cobrança.
Esse comportamento reforça a percepção de uma liderança que oscila, testa discursos e evita se comprometer integralmente com suas próprias posições. Para o eleitor, fica a sensação de insegurança: afinal, qual é o verdadeiro Pivetta? O que participou das decisões anteriores ou o que agora tenta se descolar delas?
No fim, o risco é claro. Quando um governo começa a falar em duas vozes ou quando uma de suas principais lideranças passa a contradizer a própria trajetória, quem perde é a previsibilidade administrativa e a confiança da população.
Mato Grosso não precisa de reposicionamentos oportunistas nem de ambiguidades políticas. Precisa de clareza, coerência e responsabilidade real com as decisões tomadas, ontem e hoje.