SINOP, MT – Em meio ao cenário político efervescente de Mato Grosso, uma pergunta ressoa com força nos bastidores e nas redes sociais: o que, de fato, define um bolsonarista? A questão ganha contornos ainda mais complexos quando se observa a trajetória de diversas lideranças que, hoje, se declaram alinhadas ao ex-presidente Jair Bolsonaro, mas que no passado flertaram, apoiaram ou até mesmo atuaram em conjunto com governos de esquerda.
O cerne do debate não reside na legitimidade de mudanças de posicionamento – afinal, a política é dinâmica –, mas sim na aparente seletividade e incoerência com que o passado político de alguns é cobrado, enquanto o de outros é convenientemente ignorado.
Dois pesos, duas medidas?
A frase do jornalista Lúcio Sorge, “pau que bate em Chico não está batendo em Francisco”, ecoa perfeitamente a percepção de muitos. Parece haver um critério duplo no julgamento ideológico, especialmente quando se trata de figuras públicas em Mato Grosso.
Um exemplo notório é o da deputada estadual Janaína Riva. Apesar de sua popularidade e bom desempenho em pesquisas, ela frequentemente enfrenta críticas por declarações passadas, anteriores ao seu apoio a Bolsonaro em 2022. Setores mais radicais insistem em desenterrar esses posicionamentos para questionar sua lealdade ao movimento.
Contudo, essa mesma lupa crítica parece não ser aplicada a outros nomes com históricos igualmente, ou até mais, sinuosos:
• Otaviano Pivetta: O atual vice-governador, com passagens por partidos de centro-esquerda como o PDT, onde teve atuação destacada, hoje busca aproximação com o grupo bolsonarista. Curiosamente, Pivetta já teceu duras críticas a Bolsonaro, chegando a chamá-lo de “falastrão”.
• Mauro Mendes: O governador de Mato Grosso, em 2010, declarou apoio à então candidata Dilma Rousseff e, mais recentemente, em 2024, apareceu ao lado do presidente Luiz Inácio Lula da Silva, a quem se referiu como “estadista”. Seu histórico inclui filiação ao PSB, um partido de esquerda.
• José Medeiros: Atualmente no Partido Liberal (PL), Medeiros iniciou sua carreira política como aliado de figuras ligadas à esquerda, como Percival Muniz. Ele foi presidente municipal do antigo PPS (hoje Cidadania), partido com raízes no Partido Comunista Brasileiro (PCB). Postagens antigas em suas redes sociais, de 2011, mostram críticas a Jair Bolsonaro, a quem chamava de “Bulssonaro”.
A complexidade da política e o patrulhamento ideológico
Diante desses fatos, a pergunta se aprofunda: por que alguns são implacavelmente cobrados por seu passado, enquanto outros desfrutam de uma espécie de anistia política? Quem estabelece esses critérios? E, mais importante, quem pode se dizer imune a ter tido, em algum momento, proximidade com ideologias ou partidos de espectro diferente?
A política democrática é, por natureza, um campo de evolução de pensamento, liberdade de posicionamento e construção de alianças. No entanto, quando o debate é sequestrado por um patrulhamento ideológico seletivo, o que se vê é a fragilização do próprio sistema e a proliferação de incoerências.
O que realmente importa: o histórico completo de um político ou sua posição atual? E quem tem a prerrogativa de decidir quem pode ou não mudar de lado?
Em um cenário político cada vez mais polarizado, talvez o verdadeiro desafio não seja rotular quem é de direita ou de esquerda, mas sim garantir que a régua de avaliação seja a mesma para todos, promovendo um debate mais justo e transparente para a população de Sinop e de todo o Mato Grosso.