O excesso de chuvas e o consequente atraso na colheita da soja estão pressionando os produtores de milho segunda safra no extremo norte de Mato Grosso. Com atrasos de até dez dias na janela considerada ideal para o plantio, agricultores da região já estimam uma redução de até 20% na área destinada ao cereal.
Em municípios como Peixoto de Azevedo e Matupá, o volume de precipitações está muito acima da média, deixando o solo encharcado e dificultando a logística interna das propriedades. Para muitos, a colheita virou uma corrida contra o tempo para tentar salvar a soja, que em muitos talhões já passou do ponto ideal.
A situação com o solo compromete a movimentação das máquinas e transforma cada decisão no campo em uma tentativa de reduzir prejuízos severos. É o caso do agricultor Richelli Bruno Galiassi Cotrim, que relata que, dos 8 mil hectares cultivados nesta safra, cerca de 1,5 mil enfrentam problemas críticos.
“Trezentos [hectares] estão avariados. Vou tentar colher e antecipar os outros para não estragar mais. Não é chuva de 10 ou 15 milímetros; são 100, 150, 180 milímetros em uma única chuva. Alaga roda, derruba ponte e bueiro”, afirma o produtor ao projeto Mais Milho.

Incerteza climática e mudança no planejamento do milho
A realidade de estradas precárias e frete em alta dificulta o fechamento das contas. O produtor Nelson Lorena Néia Júnior conseguiu colher 2,3 mil de seus 3,7 mil hectares, mas já contabiliza prejuízos diretos na margem de lucro. Ele estima perdas entre 8 e 10 sacas por hectare devido ao excesso de umidade.
O investimento inicial para colher entre 75 e 80 sacas por hectare não se concretizou. Nelson explica ao Canal Rural Mato Grosso que o custo elevado do milho não permite riscos: “O lucro já foi. Está difícil fechar a conta com o preço atual da soja. A gente tinha um projeto de plantar 3 mil hectares de milho, mas vamos reduzir para 2,6 mil”.
Segundo ele, o acúmulo de água impede o desenvolvimento das raízes. “Forma uma lâmina d’água sobre o solo e a adubação acaba prejudicando a raiz porque o milho não absorve, ele fica debaixo d’água e não vai para frente”, pontua o agricultor, que vê o cronograma de plantio atrasado em uma semana.
Em Marcelândia, a crise produtiva levou o município a decretar situação de emergência. O Sindicato Rural local aponta que cerca de 35% dos 200 mil hectares de soja ainda não foram colhidos. A expectativa é que o acumulado de chuvas chegue a 3 mil milímetros, marca muito superior à média histórica que varia entre 1,8 mil e 2 mil milímetros.

Impactos na integração lavoura-pecuária e custos de produção
Marcelo Cordeiro, presidente do Sindicato Rural de Marcelândia, estima uma queda de pelo menos 10% na produtividade da soja. Além do clima, a escassez de crédito agrícola e entraves burocráticos surgem como obstáculos. Sem o aporte necessário, o agricultor fica sem margem para novos investimentos.
“O produtor não deixa de trabalhar, ele quer ampliar a produção, mas essas dificuldades tornam a atividade quase impraticável. Vamos colocar em torno de 20% a menos de área de milho este ano”, projeta Cordeiro. Ele ressalta que muitos produtores estão no limite para honrar seus compromissos.
Mesmo quem concluiu a colheita da soja, como Alexandre Falchetti, optou pela cautela no cereal. Após finalizar seus 1.035 hectares, ele iniciou o milho com dez dias de atraso e também reduziu a área em 20%. Para ele, plantar após o dia 25 de fevereiro aumenta drasticamente o risco de baixa produção.
Essa redução na oferta de milho deve gerar um efeito cascata na pecuária regional, avalia o presidente do Sindicato Rural do município. Como Marcelândia reduziu áreas de pastagem, o rebanho depende de suplementação no cocho. Sem milho barato e de qualidade, o custo do trato animal dispara, afetando a rentabilidade de quem utiliza a integração para manter o gado.
“O milho e a soja são essenciais. Quando há redução na oferta, o valor sobe e nem sempre o produto vem com qualidade. Essa integração é de alta importância para todas as cadeias produtivas”, conclui Marcelo Cordeiro.

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